Roger Federer explica por que o backhand de uma mão está desaparecendo

Numa conversa com jornalistas no US Open, Roger Federer dedicou parte da coletiva a um tema que o acompanha desde o início da carreira: o futuro do backhand de uma mão no circuito. Em tom realista, o suíço reconheceu que o golpe perdeu espaço e explicou os motivos, sem deixar de lado uma ponta de otimismo.
A pergunta surgiu no fim de mais de 20 minutos de bate-papo, mas acendeu o salão. Olhando para o ranking, a tendência é clara há anos: cada vez menos jogadores usam o backhand de uma mão. Federer, um dos símbolos do golpe, expôs causas técnicas e culturais, além de mudanças no próprio jogo.
Antes de mergulhar na análise, ele soltou uma brincadeira ao lembrar de um dos principais representantes atuais do golpe. “Talvez eu treine hoje com o Musetti, só para conferir se ele está preparado e passar um pouco de sabedoria”, disse, sorrindo.
Para Federer, a cadeia de formação pesa mais do que se imagina. “Quando o seu treinador é alguém que jogava com uma mão, é grande a chance de você seguir o mesmo caminho. O problema é que, hoje, a maioria dos técnicos usou duas mãos e, principalmente, é muito mais simples ensinar esse golpe para uma criança”, afirmou o dono de 20 títulos de Grand Slam.
O processo de aprendizagem também mudou. Dominar o backhand de uma mão pede tempo e paciência, algo cada vez mais raro na base. “Se você faz ajustes técnicos, demora e frustra. Hoje tudo precisa acontecer na hora”, refletiu. Para ilustrar, contou uma experiência em casa: um de seus filhos tenta trocar o backhand de duas para uma mão e sente na pele a dificuldade do processo.
O suíço ampliou a discussão para além da técnica individual. Ele citou a evolução de materiais, cordas, bolas e superfícies, além da transformação do treino. Antigamente, a transição à rede e a construção para a passada e a voleio eram trabalhadas com mais ênfase. No circuito atual, com trocas mais pesadas no fundo, o backhand de duas mãos ganha terreno por oferecer maior estabilidade e defesa, sobretudo em aberturas e deslocamentos.
Federer lembrou que a revolução liderada por Rafael Nadal e Novak Djokovic consolidou essa virada. O que no passado era visto como ponto frágil do golpe com duas mãos — certos ângulos em defesa — hoje virou uma das suas forças mais evidentes.
Ele reconheceu que há questionamentos sobre possíveis lesões associadas ao backhand de duas mãos, especialmente na região do punho esquerdo dos destros, mas não acredita que isso mude o curso atual. “A soma de todos esses fatores fez aparecer muito mais gente usando duas mãos, embora eu ainda espere que não seja o fim”, concluiu.

