Nadal fala da aposentadoria, mentalidade, manias na quadra e Big 3

Um ano depois de aposentar as raquetes, Rafael Nadal deu uma longa entrevista na Movistar+, o canal espanhol, na qual abordou diversos temas: da sua aposentadoria até sua mentalidade; de auto exigência até suas manias em quadra; da rivalidade do Big 3 até o domínio atual de Carlos Alcaraz e Jannik Sinner.

Separamos abaixo os principais trechos da conversa:

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Aposentadoria

“Depois de me aposentar ganhei tranquilidade, no sentido de que, de alguma forma, você não sente essa responsabilidade diária de ter que render. Às vezes, render em condições que não são adequadas. Isso, no nível humano e pessoal, vai te desgastando e você acaba não sendo tão feliz quanto deveria ser alguém como eu. 

O lado ruim é que, no fim, terminou uma etapa que foi excepcionalmente bonita para mim, emocionante. Foi-se algo que realmente me apaixonava, que era competir no mais alto nível. Essa adrenalina, são coisas que ficam aí para sempre. Acho que você substitui isso por muitas outras coisas na vida que podem ser melhores em muitos sentidos, mas aquilo que se encontra no esporte é difícil de encontrar em outro lugar.”

“O esporte e o tênis foram o que ocuparam toda a minha dedicação. Mas eu estava preparado [para a aposentadoria] porque esgotei minhas opções até o fim. O fato de ter levado até o limite todas as opções reais que eu tinha para continuar competindo no nível que eu gostaria me deu a convicção e a tranquilidade de terminar em paz, convencido de que era a decisão que eu tinha que tomar porque não havia mais o que fazer. O tanque já estava vazio.”

Não guardo nenhum tipo de má lembrança da fase antes da minha aposentadoria. Há pessoas que achavam que eu deveria ter parado antes, que esse final não fazia sentido. Para mim fazia sentido: cada um deve agir de acordo com quem é. Eu agi assim. Tentei levar minhas opções até quando realmente já não havia mais. Eu gostava do que fazia.

Eu não me aposentei por estar cansado do que fazia ou por falta de motivação. Eu me aposentei porque o corpo não me permitia mais. Eu continuava sendo feliz fazendo o que fazia. Na cirurgia, me disseram que havia chances de me recuperar totalmente. Eu precisava me dar um tempo para saber. Chegou um momento em que percebi que podia competir, mas não naquele nível que eu precisava para seguir. Levei minha carreira ao limite, o mais longe que ela podia ir.”

Talento ou trabalho?

“Você pode ter o maior talento do mundo, mas precisa de capacidade de trabalho, disciplina e concentração no tênis. No meu esporte, o talento é o que te faz ter aquele extra, mas uma parte muito importante tem que ser o trabalho. Com a paixão e a determinação adequadas, tudo fica um pouco menos complicado. Sem isso, é muito difícil superar todas as dificuldades que a vida te apresenta.

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Os sacrifícios são quando você faz coisas que não quer fazer. Nesse sentido, eu não fiz grandes sacrifícios. Fiz grandes esforços, mas sacrifícios, poucos. Eu aproveitei o que fiz. Não senti que perdi praticamente nada na vida. Tive uma vida mais ou menos equilibrada, sem obsessões. Sinto que fiz tudo o que um adolescente tem que fazer para não sentir que perdeu parte da infância. Tive tempo para tudo.”

Auto exigência e mentalidade

“Devo muito ao meu tio, que me fez ser uma pessoa focada. Ele me obrigava a estar com intensidade, disciplina e atenção em cada treino. Se você treina isso desde pequeno, é fácil evoluir do jeito certo. Sempre me deixei ajudar por todas as pessoas ao meu redor. Tinha capacidade para assumir o desafio de querer alcançar meus objetivos e me dar opções reais de lutar por eles. Sempre tive a determinação para continuar melhorando e tentar me manter no mais alto nível. Eu sempre fui o mais autocrítico, o que colocou o nível de exigência mais alto.

Às vezes minha carreira foi vista como a de um grande lutador, alguém com enorme capacidade de concentração. Para mim é um elogio que isso seja assim. Você pode ter um grande físico e capacidade de trabalho, mas se o forehand não vai para onde tem que ir, infelizmente… Existe uma qualidade tenística que você precisa para competir no mais alto nível.”

“As pessoas acham que eu estava perdendo e seguia acreditando, mas não. Eu sabia que estava perdendo e achava que ia perder, mas isso não me levava a desistir. Eu tentava encontrar soluções constantemente. Isso vem do entendimento do que é o esporte. O esporte é tentar dar o máximo mesmo sabendo que vai perder. O que mais me incomodava na minha carreira, o que eu tolerava mal, era voltar para casa depois de um torneio com a sensação de que não fiz tudo que estava ao meu alcance para que as coisas fossem bem.

Eu buscava soluções mais do que pensava no resultado. Pensava: o que posso fazer para tentar mudar a dinâmica? Na maioria das vezes em que você está perdendo, você pode tentar coisas, e quando algo funciona, sempre vale a pena. Às vezes, desses momentos de esforço mental, você consegue pequenas vitórias que ao longo de um ano fazem toda a diferença.”

Rivalidade do Big 3

“Você passa por fases. Quando é mais jovem, vive tudo de forma mais intensa. Com os anos, as coisas se suavizam. O positivo da nossa época é que terminamos nossas carreiras [eu, Roger Federer e Novak Djokovic] e podemos ir jantar juntos sem problema nenhum. Isso é algo de que se orgulhar. Competimos pelas coisas mais importantes, mas nunca levamos isso ao extremo. A rivalidade ficou na quadra, e as relações pessoais sempre foram de respeito, admiração e até certa amizade com os rivais.

Fico feliz de ter podido ser parte dessa história. Sem tirar nenhum mérito de [Jannik] Sinner e [Carlos] Alcaraz, que querem fazer as coisas bem, acho que nós (o Big 3) contribuímos para que as novas gerações possam pensar que é possível ser um competidor feroz sem necessidade de odiar o rival. Pode-se ter uma relação que não seja de amizade, mas ótima. É um bom legado que deixamos.”

Manias em quadra

“Não sou uma pessoa muito supersticiosa, praticamente nada. Ao contrário do que se pode pensar, fora do tênis eu não tenho nenhuma rotina ou ritual. Tudo isso ficava na quadra e na competição. Eu precisava daquilo. Gostaria de poder alcançar aquele nível de concentração sem as rotinas. Eu não as tinha tão marcadas no início da minha carreira. O tênis exige muito e te consome por dentro. Você entra em quadra todos os dias sabendo que à noite pode estar voltando para casa derrotado.

Você precisa encontrar rotinas com as quais se sinta confortável, seguro, e que te ajudem a não perder o foco no que está fazendo, a se isolar de todo o resto. Tentei diminuir essas rotinas, porque quando me via pela televisão, eu não gostava do que via, mas elas não me faziam mal. Elas me davam a sensação de poder estar 100% focado no que fazia. Me mantinham centrado no momento.

Copiar é o mais fácil. A gente tem que olhar para as pessoas que fazem as coisas melhor do que nós e tentar aquelas coisas que você gosta nelas. No tênis é igual. Claro que eu prestava atenção em coisas que meus rivais faziam para tentar melhorar. Quando treinava, no meu dia a dia, eu não pensava neles.”


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José Pelagio
José Pelagio
18 de dezembro de 2025 08:02

O Nadal só fala as coisas ao contrário , diz que não era obsecado , e que não era superticioso,mas….., é uma pena que ele ache a maioria débil !

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